segunda-feira, 24 de outubro de 2016
Crítica do Pensamento Único: Como Pensar em vez de O Que Pensar
sábado, 24 de setembro de 2016
sexta-feira, 18 de março de 2016
Utopia
domingo, 6 de dezembro de 2015
Do Golpe de Estado ao Estado de Golpe
O sujeito político que ocupa o lugar do Presidente da República tem vindo a demonstrar, reiterada e claramente, o que o move na sua acção política: os seus interesses, e os interesses do grupo que escolheu como seu.
A escolha deste grupo ficou definida no seu discurso de vitória no dia da sua reeleição: os poderosos, e os mansos e obedientes.
Mas também nesse discurso foi claro na afirmação de que os seus interesses prevalecem sobre os demais: ao rejeitar o vencimento inerente ao cargo de Presidente da República, optando por ser remunerado pelas suas pensões, vincou, sem sofismas, que a representação política, cultural, social, de um Povo inteiro, consubstanciada no Presidente da República, era para si apenas “um custo” a suportar na defesa prioritária dos seus interesses.
A coerência, assim sustentada, na sua acção política levou-o a marcar eleições legislativas para 4 de Outubro, mesmo sabendo que esse acto afrontava directamente uma imposição legal da União Europeia, a da submissão do Orçamento do Estado à aprovação da Comissão Europeia em Outubro. Mais do que cumprir normas e tratados, importava “dar tempo ao seu povo” – o governo de Passos Coelho – para disfarçar 4 anos de governação contra a maioria do Povo, com acenos de que “os sacrifícios impostos valeram a pena”.
Assim, quer o atraso no cumprimento desta obrigação inscrita do Tratado Orçamental, quer as consequências que dele possam derivar, são da exclusiva responsabilidade deste sujeito político.
(O que acima exponho não significa, de modo algum, a defesa dessa aberração política, económica, social e humana que dá pelo nome de Tratado Orçamental!)
Porém, os resultados eleitorais não foram os que desejava. E não tardaram as ameaças contra quem se atrevia a colocar em risco os seus interesses e os interesses do “seu povo”. Acolitado por uma comunicação social manipulada e manipuladora, tudo fez para impor a sua solução governativa – a continuação do governo de Passos Coelho -, levando o país à eminência de um golpe de estado.
Mas se o golpe de estado não se concretizou (ainda…), o discurso que proferiu na tomada de posse do actual governo, carregado de ressentimento e despudoradamente ameaçador e chantagista, mais não fez do que instituir um estado de golpe: tudo o que o governo venha a decidir que ponha em caus os interesses por que tanto lutou, e luta (os seus e os do “seu povo”) será liminarmente rejeitado, conduzindo mesmo à demissão do governo, se necessário for.
É isto que é o estado de golpe: a prevalência, assumida e praticada sem hesitações, dos interesses sobre os Valores e os Princípios; a “legitimação” desses interesses através de “adequada semântica jurídica”, depois de as palavras terem sido “devidamente torturadas” por forma a que o seu significado, já “expurgado” de quaisquer Valores e Princípios, “docilmente” se submeta aos interesses; e se, mesmo assim, houver algo que em risco esses interesses sem que as “leis à medida feitas” os possam defender, “não há alternativa” senão usar a Força para “impor a ordem”.
Zelar, “custe o que custar”, pelos seus interesses, e os interesses do “seu povo”, é o único propósito deste sujeito político.
No entanto, esta é apenas a expressão caseira dos interesses, e dos seus conflitos, que definem o “estado a que chegámos” no mundo globalizado.
Sem Valores nem Princípios, os conflitos de interesses buscam na Força a sua resolução, seja pelo confronto armado directo, seja pelo terrorismo nacional e transnacional. A todo o momento chegam-nos imagens chocantes, relatos de violências inimagináveis, que, ao mesmo tempo que nos indignam e apavoram, nos conduzem à identificação irracional, e manipulada, de um inimigo que devemos expulsar, torturar, segregar, eliminar, aniquilar – em nome de interesses. Interesses que não são nossos, que desconhecemos, que não identificamos, que não conseguimos subordinar aos Valores e Princípios que sustentam as nossas opções.
O domínio dos interesses sobre os Valores e Princípios atingirá a sua expressão máxima se o Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP) e o Trade in Services Agreement (TiSA) forem concluídos, aprovados e levados à prática.
O secretismo com que ambos os tratados estão a ser negociados é de tal ordem torna verosímil a notícia de que se alguém (p. ex., um deputado da Assembleia da República) que queira conhecer os seus conteúdos e consequências para o país terá que solicitar autorização à embaixada dos Estados Unidos da América e, na eventualidade de lhe ser concedida, será “devidamente acompanhado” e “adequadamente revistado” para que não tenha a veleidade de tomar quaisquer tipos de notas.
A ser verdade, será lícito perguntar: 1) Porquê a embaixada dos EUA e não o Governo de Portugal?; 2) O Governo de Portugal conhece o conteúdo destes tratados, determinantes que se apresentam para o Futuro do país?; 3) Se sim, não é gravíssimo que permita que seja uma embaixada de um outro país a conceder autorização para “uma visita rigorosamente guiada” àqueles documentos?; 4) Se não, não é ainda muito mais gravíssimo (perdoe-se o mau português)?; 5) Sobretudo, será ou não uma definitiva prova de que Portugal já não é um país soberano e independente?
No entanto, se dos seus conteúdos muito pouco se conhece, sabe-se que, em paralelo, instituir-se-á o Investor-State Dispute Settlement (ISDS), através do qual os conflitos que possam surgir entre um Estado e uma multinacional instalada no seu território serão dirimidos, não em Tribunais (nacionais ou internacionais), não sob leis conhecidas e ratificadas pelos intervenientes, mas sim em privados escritórios de advogados “ditos especializados” na resolução desses conflitos.
Os resultados conhecidos deste tipo de resolução de conflitos – desde a América Latina, ao Egipto, à Alemanha (apenas como exemplos) -, são, por si só, prova bastante de que Valores, Princípios, Cidadania, Pessoas, Direitos Humanos, são, hoje, mera retórica poética. Somente os interesses são relevantes, assumindo um lugar, uma acção e um poder imperiais. E as leis, quando existem, são interpretadas (elaboradas) em obediência a um único postulado: “O Direito do mais Forte à Liberdade”.
Conduzidas que foram as Comunidades Nacionais à situação de estado de golpe acima descrita, ficaram escancaradas as portas a um golpe de estado globalizado: os interesses das multinacionais prevalecerão sobre todas e quaisquer perspectivas de Futuro em que as populações se reconheçam, individual e colectivamente. A luta milenar que a Humanidade vem travando pelo reconhecimento, efectivo e praticado, da Igualdade dos Diferentes será (está a ser!) brutalmente substituída pela violência (cada vez maior) das Desigualdades entre “Iguais”: os “Iguais” transformados em meros objectos, em simples instrumentos, em “coisas”, para sustentarem a inumana ganância dos privilegiados accionistas das multinacionais, entendendo-se por accionista não apenas o possuidor de acções das empresas, mas o decisor e praticante das acções de domínio, exploração, segregação, discriminação, exclusão, aniquilação, de quem ouse sequer expressar tímidos protestos contra a crescente desigualdade política, social, cultural, humana.
De que outro modo podemos interpretar a condenação (por “tribunal privado”) do Egipto porque, ao aumentar o salário mínimo nacional, “pôs em causa as perspectivas de lucro” de algumas multinacionais instaladas no seu território? Ou a condenação da Alemanha quando, por ter cancelado o seu programa de construção de centrais nucleares, se viu acusada (em “tribunal privado”) de anular as “perspectivas de lucro” de outras multinacionais?
E não nos podemos esquecer que este “edifício jurídico privado” se sustenta, para além de leis “semanticamente purificadas” de Valores e Princípios Humanos, no poder de coacção detido pelas multinacionais, por três vias: sanções (quebra de fornecimento de bens e serviços); “exércitos privados” em serviço directo; acção de Empresas Militares Privadas, de que as multinacionais são poderosas “accionistas”.
Um autêntico golpe de estado globalizado que colocará (definitivamente? até quando?) o homo sapiens em completa submissão ao homo economicus (especialmente à sua fronteira terrorista, a componente financeira, deixando-nos órfãos de Afectos, relegados da Utopia, deserdados da Humanidade.
É este mundo inumano que aceitamos deixar como legado aos nossos Filhos?
Aceitamo-nos acríticos, acéfalos, autómatos, anómalos, meros cordeiros mansos e obedientes de rebanhos apascentados pelos Estados?
sábado, 31 de outubro de 2015
Perguntas que demandam Respostas Urgentes
Aníbal Cavaco Silva decidiu, em tempo que considerou oportuno, candidatar-se a Presidente da República. Terá, eventualmente, ouvido muitas pessoas, cidadãs e cidadãos deste País, mas a decisão tomada foi exclusivamente sua. Ao fazê-lo assumiu-se como um sujeito político.
Durante a campanha eleitoral para a Presidência da República, este sujeito político apresentou as suas ideias, os seus propósitos, as suas prioridades, a sua análise do Presente e a sua visão para o Futuro da Comunidade que todos nós constituímos e construímos, e submeteu-as à nossa avaliação. Por duas vezes.
Obteve a maioria dos votos expressos, tendo sido declarado vencedor. Mas no seu discurso de vitória, na noite da reeleição, deixou claro que não seria o Presidente de todos os Portugueses. Da forma, e do conteúdo, do exercício do Poder que lhe foi conferido por eleições livres e democráticas, veio a confirmação dessa postura: um sistemático apoio, incentivo e defesa de um governo cuja acção política é desonesta (porque faz da mentira e da falsidade um modo de ser), é hipócrita (porque não cessa de provocar a divisão entre os Portugueses), é cobarde (porque se submete aos fortes e violenta os fracos), é chantagista (porque faz da ameaça do pior se a sua vontade não for aceite), é criminosa (não há outra designação para o que tem sido feito às reformas e pensões, e à privatização ao desbarato de sectores estratégicos para o Futuro do País).
Mas se esta avaliação política do desempenho político do sujeito político que ocupa o lugar do Presidente da República, e também a avaliação política da acção política do governo, se podem inscrever dentro do confronto político democrático, já a decisão que aquele sujeito político tomou de ser remunerado pelas suas pensões e não pelo vencimento correspondente ao cargo de Presidente da República só tem uma interpretação possível: este sujeito político colocou os seus interesses pessoais acima (bem acima!) da representação política, cultural e social ao mais alto nível, quer interno quer externo, de um Povo inteiro. Este sujeito político insultou um Povo inteiro.
Este acto político revela, porém, algo de extrema importância quando pretendamos fazer uma avaliação séria da situação política que vivemos, e da forma que a ela chegámos: os Interesses, individuais e de grupo, prevalecem sobre os Valores e os Princípios em que nos revemos e reconhecemos como nossos, quer como indivíduos, quer como membros de uma Comunidade.Mais: vindo do lugar mais representativo do Estado dá um sinal inequívoco a toda a Comunidade que essa é a postura correcta e expectável quando a cada um dos seus membros se coloca uma escolha desta natureza. E quando os Interesses prevalecem sobre os Valores e os Princípios, todas as arbitrariedades se tornam “legítimas”, pois tal “legitimidade” resulta da prática concreta, e coerciva, da razão da Força – apenas o mais forte tem direito à Liberdade, à Dignidade, ao protagonismo activo e democrático na construção do seu Presente e do seu Futuro.
Em 23 de Outubro, no discurso de indigitação do primeiro-ministro do novo governo, o sujeito político que ocupa o lugar do Presidente da República foi mais longe do que alguma vez tinha ido:
a) Defendeu, com inusitado vigor, a prevalência dos Interesses sobre os Valores e os Princípios;
b) Repudiou a Constituição da República, onde estão expressos os Valores e Princípios, e que jurou cumprir;
c) Excluiu da Comunidade 1 milhão de cidadãos e cidadãs;
d) Declarou a submissão absoluta a poderes externos, assumindo, sem margem para dúvidas, que este País não é independente, é uma colónia.
Cada um de nós tem, como membro desta Comunidade, o direito, o dever até, de fazer a sua avaliação. Poderá ser concordante ou discordante da que acima exponho. É nesse confronto, e desse confronto, que, em Democracia, devemos perspectivar, e construir, um Futuro em que todos nos possamos reconhecer, no qual nos possamos sentir como protagonistas activos, Inteiros, Livres, Cooperantes, Solidários.
Mas se isto for verdade para todos os cidadãos e cidadãs, há, no entanto, uma parte de nós – os Militares – que, hoje, exige respostas urgentes a perguntas suscitadas pela decisão deste sujeito político, na sua forma e no seu conteúdo.
Porquê?
Porque os Militares juram, perante o Povo a que pertencem, sacrificar a sua própria vida se necessário for, na intransigente defesa do Povo Inteiro.
Assim:
1) A exclusão de 1 milhão de cidadãs e cidadãos significa que aquele juramento dos Militares não se lhes aplica?
2) Se esta pergunta não tem razão de ser, o que existe de tão poderoso que se sobrepõe ao sacrifício da própria vida e permite excluir 1 milhão de pessoas da vivência inteira da Comunidade?
3) Os mais de 4 milhões de cidadãs e cidadãos que se abstiveram não foram excluídos porquê?
4) Se há dúvidas sobre as razões das abstenções, quantos desses mais de 4 milhões poderão ser “perdoados” e permanecer, por inteiro, na Comunidade?
5) A quantos outros será impedida essa permanência inteira?
6) Quem definiu, quando, como, e onde ficou inscrito que o sujeito político que ocupa o lugar do Presidente da República tem o Poder de eleger o povo que quer?
7) Se este Poder não está na Constituição da República; se este sujeito político faz tábua rasa da Constituição da República; se os Militares juram cumprir e fazer cumprir a Constituição da República; como dirimir a violenta contradição entre este juramento e a prática política do sujeito político que ocupa o lugar do Comandante Supremo das Forças Armadas?
8) Esta exclusão de 1 milhão de pessoas e esta rejeição da Constituição não representam uma efectiva e despudorada partidarização dos Militares?
9) Se Portugal não é um País Independente; se à Comunidade são subtraídos 1 milhão de Portugueses (e quantos mais dos abstencionistas?); se são os Interesses, sobretudo os externos, que prevalecem; diante de quem, ou do quê, os Militares Portugueses passarão a jurar o sacrifício da própria vida?
10) A transformação dos Militares-Pessoas em militares-recursos, decretada pelo ministro Aguiar hífen Branco pressupõe que o sacrifício da própria vida que os Militares juram passou a estar ao nível da deterioração de um motor de um carro de combate, de um veio de hélices de um navio, de uma asa de um avião?
11) Portugal ratificou o Estatuto de Roma, que instituiu e fundamenta o Tribunal Penal Internacional. Nele estão tipificados os “Crimes de Guerra” e os “Crimes Contra a Humanidade”. Também nele está inscrita a “Responsabilidade Individual” de quem cometa um destes crimes, nomeadamente um Militar. Mas inscreve, igualmente, a “Responsabilidade Acrescida” dos seus “superiores hierárquicos, militares e civis". Que respostas urgentes dão os Chefes Militares aos seus subordinados às perguntas aqui formuladas?
Do sujeito político que ocupa o lugar do Presidente da República e o do Comandante Supremo das Forças Armadas as respostas já estão dadas: nestes quase 900 anos de História do Povo a que me orgulho de pertencer é uma tarefa ciclópica, destinada mesmo a fracassar, procurar outra criatura que tenha descido tão baixo no exercício do Poder Político.
sexta-feira, 31 de julho de 2015
Três Pilares Essenciais do Estado Totalitário
O Acefalismo Humano dos Burocratas
O Acefalismo Democrático dos Deputados
O Acefalismo Político dos Militares
Três Pilares Essenciais do Estado Totalitário
Vivemos hoje tempos de cólera. A instabilidade é global; os confrontos armados, cada vez em maior número e mais violentos, permanecem regionalizados. O Futuro que ansiamos afasta-se de nós, deixando-nos órfãos de Esperança.
Esta realidade surge-nos como definitiva, nada mais importa para além do agora: vivemos na ditadura do imediato, esmagados pelo carácter cientificamente inquestionável do “A longo prazo estaremos todos mortos” (Keynes), “traduzido” por Margaret Thatcher num “There Is No Alternative” (“Não Há Alternativa”).
O dilema humano do “Ser ou Não Ser” foi ultrapassado pela escolha “necessária” do “Ser ou Ter”, e esta vencida pela exigente urgência do “Consumir” – “Trabalha, Consome, Morre” é o lema que espelha a nossa realidade: “somos” enquanto capazes de produzir; "temos" enquanto capazes de consumir; “ganhamos” o estatuto de “descartáveis” se essas capacidades nos falharem, mesmo que tal seja uma imposição exterior a cada um de nós.
Como chegámos aqui?
Como poderemos construir uma outra realidade?
Duas perguntas cruciais, e que demandam respostas individuais e colectivas. Individuais porque esta realidade afecta-nos tão profundamente que não nos é mais possível deixarmos que outros – sejam eles quem forem – pensem por nós, resolvam por nós, as nossas dúvidas, os nossos problemas. Colectivas porque cada vez mais as respostas que possamos dar (ou omitir) afectam quem está ao nosso lado, seja família, vizinho, profissional do mesmo ofício, cidadão.
Como ponto de partida, entre muitos outros possíveis, para procurarmos respostas pertinentes, e que nos ajudem a imaginar um Futuro e a tentar construí-lo, voltemos à “instabilidade global”.
São múltiplos os factos que afirmam, claramente, que a instabilidade está globalizada: Grécia, Brasil, Estados Unidos da América, Turquia, Médio Oriente, Ucrânia, Balcãs, Rússia, China, África, são exemplos concretos.
Que têm em comum estes múltiplos exemplos? Os interesses económicos – os recursos naturais que são considerados indispensáveis ao “progresso e desenvolvimento” das sociedades – mas também, e sobretudo, os interesses financeiros.
Ora, a bondade (chamemos-lhe assim) dos interesses económicos, na perspectiva da sua participação na construção de um Futuro melhor para todos, é manifestamente subvertida pela especulação financeira que, guiada pela “cientificidade” do “Não Há Alternativa”, limita a sua acção ao Presente, travestindo-o de uma “realidade última”*.
Esta contradição – os interesses económicos, que necessitam de estabilidade para se desenvolverem; a especulação financeira, para a qual a instabilidade é um pré-requisito para o seu sucesso – está a ser resolvida a contento da especulação financeira, quer através do seu Poder próprio (a banca, as agências de rating, as bolsas), quer através do seu “braço armado” (o Poder militar), “regionalizando adequadamente” os confrontos armados (guerras “locais”), como meios de afirmação de algo como “Vejam o que vos pode acontecer se recalcitrarem e não cumprirem as nossas regras”, quer ainda no controlo efectivo de instituições nacionais e supranacionais que se reivindicam de democráticas.
É nestas “regras” por si definidas (de acordo com as circunstâncias do momento) que a especulação financeira estrutura a instabilidade global que lhe é imprescindível para o seu sucesso, traduzido este no maior volume de ganhos possível. “Regras” essas que assentam em três (entre outros) pilares essenciais:
1. O Acefalismo Humano dos Burocratas. “É escandalosamente óbvio que a nossa Tecnologia excede a nossa Humanidade” disse Einstein há cerca de 70 anos.
Desde então, é enorme o avanço que conseguimos alcançar na Tecnologia, da Técnica, na Ciência, nas múltiplas áreas por onde se estende o Conhecimento.
Hoje, essa tremenda evolução criou as condições indispensáveis para que pudessem ser garantidos a todos nós a Dignidade e os níveis de Bem Estar que nos fazem, efectivamente, sermos Seres Humanos.
Mas não só: detemos já o Conhecimento, e os Instrumentos, que permitiriam sermos parte integrante e complementar da Natureza, numa parceria, também ela efectiva, de vivência cúmplice nesta Casa Comum a que chamamos Terra.
Não é, no entanto, isso que acontece. Se há seres humanos que exploram, humilham, ofendem, escravizam, matam outros Seres Humanos; se continuamos a assumir como propriedade nossa todos os outros seres não-humanos; se não cessamos de violar, degradar, exaurir, destruir, essa Casa Comum; é porque o Conhecimento, a Tecnologia, deixaram de estar ao serviço dos Seres Humanos para se servir deles.
Porquê?
Uma crucial razão é uma das “regras” da especulação financeira: para o seu desenvolvimento, para poderem avançar mais e mais na sua evolução, o Conhecimento e a Tecnologia necessitam de financiamento. Mas este só lhes é concedido “se, e só se” o retorno como lucro (o único critério que a especulação financeira reconhece como medida do seu sucesso) for assegurado, e no curto prazo. Melhor ainda, que esse retorno como lucro seja protegido, isto é, seja “concedido sem risco” ou “com o risco suportado por outrem”.
Esta “regra” é, por sua vez, reforçada com o “paradigma fundamental” da “competitividade”. De facto, a busca incessante desse financiamento conduziu à fragmentação dos Saberes e à preponderância de umas sobre outras Tecnologias: nos “eleitos” residem as “garantias mais fortes” de sucesso para o lucro imediato.
Esta divisão, provocada, entre as várias áreas do Conhecimento, e entre as várias áreas da Tecnologia, tem como consequências, por um lado, a sua submissão à especulação financeira, reconhecendo nesta um Poder superior a que devem obediência e, por outro, à sua desumanização, pela rejeição do primado do Ser Humano sobre os Instrumentos que cria.
É, na verdade, de Poder que estamos a tratar, da sua conquista, do seu exercício, da sua eficácia, da sua conservação. Um Poder que, residindo na especulação financeira, se hierarquiza em sucessivos níveis inferiores de Poder, neles colocando “espíritos sistemáticos e afeiçoados aos seus sistemas”**que, “ao pensar nos seus interesses…se ocupe[m] apenas dos nossos”**. Estes são os que hoje designamos por burocratas: seres dominados pelas “regras”, indefectíveis e acéfalos seguidores de ordens, esmerados guardiões do “sistema”, pois dele e para ele vivem em exclusividade.
A desumanidade com que o Povo grego tem vindo a ser tratado pelos diversos Poderes instituídos na União Europeia, sob o pretexto do “cumprimento de regras” (muitas delas ambíguas nas suas possíveis interpretações; outras de duvidosa existência), diz bem quão profundamente está instalado, e activo a vários níveis, o acefalismo humano dos burocratas que sustentam o actual “sistema” a que damos o nome de União Europeia.
2. O Acefalismo Democrático dos Deputados. Num Estado Democrático, ou em instituições supranacionais democráticas, eleições livres conduzem ao Poder representantes dos eleitores, do Povo, com a missão de governarem para e com o Povo.
Num Estado Democrático, ou em instituições supranacionais democráticas, o confronto de ideias, levado à prática com base efectiva e sólida no respeito mútuo entre todos os cidadãos, é crucial para que as escolhas que cada um de nós faça sejam conscientes, quer em si mesmas, quer nas suas consequências e correspondente assunção de responsabilidades.
Quando o actual primeiro-ministro, no início do seu mandato, afirmou na Assembleia da República ter constatado haver um “colossal desvio nas contas públicas”, aconteceu que:
Ø O primeiro-ministro não se colocou na posição de chefiar um “governo de gestão” até ao adequado apuramento de responsabilidades e, simultaneamente, à identificação do grau de influência desse desvio no efectivo cumprimento do programa eleitoral que o tinha conduzido ao Poder;
Ø Os deputados apoiantes do anterior governo não propuseram nenhuma acção que pudesse, eventualmente, ilibá-lo de quaisquer responsabilidades, ou suportasse uma, também eventual, confirmação de que tal desvio, a existir, não seria impeditivo do cumprimento desse programa eleitoral sufragado;
Ø À Assembleia da República cabe a aprovação dos Orçamentos do Estado. Não há documento legislativo mais directamente ligado às Contas Públicas que um Orçamento do Estado. No entanto, e perante a grave afirmação do primeiro-ministro, a AR não tomou a única decisão justificável: a de se proceder a uma Auditoria Independente às Contas Públicas:
Ø O sujeito político que desempenha o cargo de Presidente da República, a quem compete zelar pelo bom funcionamento das Instituições Democráticas, nada fez.
Nenhuma destas quatro atitudes é democrática.
Nenhuma destas quatro atitudes foi tomada tendo em conta os superiores interesses do Povo.
Recentemente, e na preparação das próximas eleições legislativas, o partido maioritário no actual governo publicou os “Critérios para a Selecção dos Candidatos a Deputados”. Nele pode ler-se que “os candidatos a deputados deverão também comprometer-se a renunciar ao mandato no caso de existir uma persistente divergência entre as orientações gerais do Grupo Parlamentar, e a sua posição individual, em ordem a salvaguardar o pleno cumprimento das opções programáticas com que o Partido se apresenta aos Portugueses e que esteve na base da sua própria eleição”.
Este “critério”, se seguido aquando das anteriores eleições legislativas (2011), teria deixado vazia a bancada parlamentar deste partido, pois nenhuma das “opções programáticas” com que o partido se apresentou aos Portugueses foi cumprida.
Por outro lado, revela uma evidente distorção democrática: a prioridade de um deputado não é representar o Povo que o elege, é obedecer às determinações, às ordens, do partido (do seu chefe). Um deputado passa, assim, a cumprir uma única função: a de dar “sustentação quantitativa” às decisões do chefe do partido.
Esta irrelevância dos deputados é a mesma dos euro-deputados, e tem como consequência imediata o desprestígio, a descredibilização, a irrelevância da Assembleia da República, tal como do Parlamento Europeu, este subalternizado, melhor, submetido à Comissão Europeia, ao Eurogrupo, ao Banco Central Europeu, entidades não eleitas nem sujeitas a nenhuma espécie de controlo democrático.
Este acefalismo democrático dos deputados coloca em instâncias burocráticas as decisões que, num Estado Democrático, competem aos representantes eleitos do Povo. Isto é, a burocratização tecnocrática do poder condicionante contido nas diversas áreas do Conhecimento e da Tecnologia, transforma esse poder em determinante, desumanizando-o.
Foi nesta situação de completa ausência de Democracia que foi imposto ao Povo grego um “acordo”, exclusivamente baseado em “regras” definidas pelo “sistema”, provando que para ele, “sistema”, e para os seus diversos níveis inferiores de poder (burocrático), os Seres Humanos são um empecilho, e, portanto, descartáveis.
3. O Acefalismo Político dos Militares. O fim último para o qual todos os militares se preparam, adquirindo todos os Saberes necessários, e o domínio de todas as Tecnologias disponíveis, é o confronto armado com um inimigo. Um confronto onde a Morte é soberana indiscutível: o militar tem que estar preparado para morrer e para matar.
O juramento que, individualmente, fazem traduz essa preparação, dura e dificílima, balizada por dois parâmetros fundacionais da sua acção: a defesa intransigente da Pátria e do Povo a que pertencem, e o sacrifício da própria vida se essa defesa assim o determinar.
Este juramento, assumido perante o Povo que juram defender, é uma exigentíssima opção política e humana.
A constatação de que, no actual Estatuto dos Militares das Forças Armadas, este juramento compartilha a sua existência como Lei com o Dever de “isenção política” não pode limitar-se ao registo de uma incompatibilidade insanável, nem ao assinalar uma incongruência inconstitucional.
Viver em comunidade com outros Seres Humanos, partilhando anseios, afectos, sonhos, contradições, um Presente que veio de um Passado comum e que ambiciona um Futuro também comum, exige de qualquer de nós a prática de múltiplas escolhas que relevam, e revelam essa vivência em comunidade, e que, por interagirem com as múltiplas escolhas de todos, são escolhas eminentemente políticas.
Isso mesmo reconhece a Declaração Universal dos Direitos Humanos. De facto, a sua identificação é inequívoca: só o pleno exercício desses Direitos faz de um Ser Humano um Ser Completo, Inteiro, Digno e Livre. E esses Direitos são, incontornavelmente, políticos.
Assim, retirar aos militares a capacidade de fazerem escolhas políticas, como o faz o actual EMFAR é, muito simplesmente, desumanizá-los. Mas a estes seres totalmente desumanizados – seres “coisificados”, transformados em meros “tecnocratas da violência” – é-lhes mantido, não somente o dever do sacrifício da própria vida, mas também, e com igual exigência, o poder de matar.
E são-lhes ministrados os Saberes adequados ao uso, no limite mortífero, das mais inovadoras Tecnologias para que possam exercer bem esse poder.
Acéfalos políticos, aos militares é, assim, “concedida” a capacidade de transformar a mais letal das Tecnologias no mais burocrático, sistémico e definitivo instrumento de resolução de conflitos, sendo eles mesmos, militares, parte integrante desse instrumento. O seu acefalismo político garante ao Poder superior ter à sua disposição um enorme poder coercivo, destrutivo, assustador, sempre pronto a obedecer, quaisquer que sejam as “regras” que circulem por todas as áreas do “sistema”.
A instabilidade em que vive a União Europeia, e cada um dos seus membros, tem posto à prova o “sistema” em que estão inseridas estas três formas de acefalismo.
Quanto aos dois primeiros – o acefalismo humano dos burocratas e o acefalismo democrático dos deputados (e euro-deputados) – o “sistema” demonstrou já ter adequadamente institucionalizados e operacionais os instrumentos de que necessita para o exercício eficaz do seu poder: o Tratado de Lisboa, o Tratado Orçamental, a Comissão Europeia, o Eurogrupo, o Banco Central Europeu. O “acordo” imposto ao Povo grego é disso indiscutível exemplo.
No que respeita ao último – o acefalismo político dos militares – é pertinente considerar como um primeiro passo a constituição da EUROGENDFOR. Já institucionalizada, é um instrumento poderosíssimo, de largo espectro de acção. Ainda não foi efectivamente testado. Ainda…
Claro que não podemos esquecer que o Poder superior que domina na União Europeia está a desenvolver todos os esforços para erguer umas Forças Armadas da “União Europeia”. Mas a facilmente reconhecida desunião política, social e humana dos Povos desta “União Europeia” torna imprescindível à construção dessas Forças Armadas o “cimento” da isenção política dos militares.
O “juramento” que esses militares possam vir a fazer já não será perante o seu Povo (algo irrelevante, como ficou claro com o “acordo” imposto ao Povo grego), nem perante o “Povo Europeu” (que simplesmente não existe): será perante as Instituições burocráticas subordinadas ao Poder superior – financeiro, globalizado, especulativo, apátrida, amoral, desumano. Isto é, totalitário.
A constituição dessas “Forças Armadas”, ou o uso prévio da EUROGENDFOR (para “levar ao redil” algum Povo “tresmalhado”), são os passos que faltam ser concretizados para que o totalitarismo europeu seja plenamente assumido.
*Seguindo o artigo “A direita radical encontrou o “fim da história” e chama-lhe “realidade””, de José Pacheco Pereira.
**Notas de Napoleão Bonaparte no “Príncipe”, de Maquiavel.

